07 julho 2005

OS SOBAS

Confesso que já dei voltas e mais voltas à cabeça e não consigo perceber este arrebatamento popular com os caciques locais. Não entendo. Por favor, algum sociólogo, psicólogo, zoólogo faça um estudo exaustivo e publique, o mais depressa possível, acerca do fenómeno, porque eu não aguento mais um dia sem perceber este enamoramento quase pueril pelos régulos do poder local.
Ponho-me a olhar para figuras como: Fátima Felgueiras, Valentim Loureiro, Ferreira Torres, Alberto João Jardim e não consigo entender que não haja vontade por parte dos eleitores locais de tirar a limpo as acusações, suspeitas, indícios que sobre eles recaem. Pelo contrário, se vem a lume notícia de que a polícia os investiga, ou que contra eles vai ser proposta acção judicial, a populaça une-se para apoiar o edil e corroborar a ideia, expelida pelo próprio, de que tudo não passa de uma armadilha, querem é “lixar” o homem, porque ele (ou ela) “não tem papas na língua”.
Mas o mais curioso é que as pessoas têm efectiva consciência de que se cometem ilegalidades, que há toda uma teia de favorecimentos e de relações mais ou menos dúbias que paira sobre as actuações dos executivos camarários. Mas mesmo assim, com dizeres quase paternais desculpam o cacique, porque afinal “se não fosse ele, seria outro, e (Deus me livre) se calhar ainda pior”. Esta atitude paternalista, de deixar andar, porque afinal nada de muito grave se cometeu (dá ideia de que para os portugueses apenas o que mete sangue e morte é grave), é simplesmente doentia e mostra bem como a atmosfera do poder locar está bafienta. De facto, os dinheiros são públicos e as pessoas não sentem directamente que cada desvio do erário público é um assalto ao bolso dos contribuintes, é um imposto futuro, para alimentar a gigante, ineficiente e inimputável máquina administrativa nacional e local.
Acresce que, e sobretudo nos municípios mais pobres e mais pequenos (como no Alentejo em que certas câmaras são a principal entidade empregadora!), há uma excessiva dependência privada em relação aos municípios, nomeadamente através de vínculos laborais (directa ou indirectamente), de favorecimentos, e bem assim, um certo receio (às vezes temor) de sofrer represálias futuras, designadamente mediante a não concessão de licenças ou autorizações, ou em alguns casos retaliações que põem em risco bens e valores muito mais importantes…
A inexistência de “massa crítica” (de elites), independentes, desinteressadas, capazes de denunciarem abertamente os atentados e atropelos que os municípios realizam, bem como o desconhecimento e/ou renitência em utilizar os meios juridicamente previstos para tutelar os direitos e interesses privados face à administração – o que leva a que muitas vezes se encare uma decisão administrativa como uma inevitabilidade, emanada de um qualquer demiurgo boçal, a despeito desse mesmo acto exalar um pútrido fedor a injustiça e ilegalidade – contribuem para que alguns sobas continuem a reinar em Portugal, dando mau nome e fama àqueles que ainda se regem pelo princípio da legalidade e não têm perspectivas de se perpetuarem em cargos públicos.
NAP

4 Comments:

At 07 julho, 2005 22:55, Anonymous jl said...

Fico com a sensação que o efeito retard post exames não retira a lucidez da análise.
É da natureza o princípio que conduz à aridez os terrenos próximos de uma grande árvore, boa ou má!
Aqueles que se perpetuam no poder fazem-no à custa de uma rede próxima de cumplicidades e interesses de outros sem escrúpulos. Estes porque não querem perder a fonte das suas receitas (não importa a base de legalidade!) não contestam as posições daquele(s) que lhes alimentam o saldo da conta.
E assim vamos assistindo à aceleração, em plano inclinado, de um país e de uma sociedade até à decadência suprema.
Será que ainda vamos a tempo de travar esta "inevitabilidade"?

 
At 08 julho, 2005 13:49, Anonymous Anónimo said...

SE "ELES" LÁ ESTÃO FOI PORQUE "NÓS" OS ELEGEMOS!

 
At 11 julho, 2005 15:40, Anonymous Anónimo said...

Caro NAP,

Só quando pessoas com formação e interessadas pelas injustiças se juntarem e decidirem fazer algo, é que as coisas, talvez, comecem a mudar... Até lá, e enquanto estes sobas andarem por aí a distribuir dinheiro e electrodomésticos, tudo permanecerá na mesma... Como diz a canção "o povo é quem mais ordena" e são eles que vão votar...


Retirei da revista "Periférica" parte de um artigo sobre o "povo" que me parece interessante para partilhar aqui...
Olívia Santos

"Em defesa de uma revolução social
(Texto de Rui Ângelo Araújo)

Eis o que mais me irrita: o acriticismo em relação ao povo. À esquerda e à direita, o povo é única entidade intocável. Nem Deus nem Marx, nem Maurras nem Rousseau, nem o Hino Nacional nem o Livro Vermelho de Mao, nem Agustina nem Saramago, nada é mais protegido de um juízo do que o bom do povo. À esquerda, tudo o que querem fazer é a favor do inocente povo. Mesmo quando lhe fazem mal, é por um desejo consciente de lhe zelar pelo bem-estar. À direita, o amor ao liberalismo e ao mercado coloca o povo e as suas escolhas acima de qualquer juízo. O povo prefere chafurdar na merda? É um direito inalienável.

Desde logo é preciso notar que o povo, na versão dual de pureza rude e inocente boçalidade, já não existe. Com o fim do mundo rural e a extinção do proletariado, o único povo que resta é uma classe média de largo espectro. Com vários níveis económicos, mas com um comportamento standard. Uma enorme classe média que deixa pouco espaço a qualquer outra classe, mesmo aquela que se refere ao "estilo". Do povo antigo, esta classe média rejeitou a pureza e herdou, inelutavelmente, a boçalidade.

A esquerda e a direita têm concepções diferentes do que é melhor para a sociedade. Coisa óbvia. Historicamente, digladiam-se, procurando cada um dos sistemas fazer vingar a sua opinião. Acontece que, nesta luta universal, os paladinos dos dois lados foram-se distraindo do verdadeiro objectivo que os devia ocupar e têm vindo a perder-se em jogos florais para ver quem mais e melhor insulta o adversário. Aproveitando esta brecha no caminho, o povo (ou a classe média) foi fazendo pela vidinha e tomando as opções que achava que melhor lhe convinham. Sem as referências, sem as directrizes, e, por que não dizê-lo, sem as imposições que lhe deviam chegar do crivo da luta ideológica, o apolítico e indolente povo, não tomou, obviamente, as melhores opções. Foi assim que surgiram os Big Brothers, as Margaridas Rebelo Pinto, os Paulos Coelho, os Joões Pedro Pais, o Jet Set, a Caras, o Herman, o buraco do ozono, o Algarve, o Guterres e o Sampaio, o Durão, certa música e toda uma lista interminável de coisas e pessoas que traduzem um só estado de espírito: o PIMBA (Povo Imbariabelmente Amado)."

 
At 11 julho, 2005 22:30, Anonymous Anónimo said...

Olívia:
já sentíamos a tua falta no seio blogosférico da ELSA. Obrigado pelos contributos, sempre valiosos. O PIMBA é quem mais ordena.

NAP

 

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