07 maio 2005

Ai, os Imortais, os Imortais...


Passou ontem na RTP1 o filme “Os Imortais”, realizado por António Pedro Vasconcelos, que conta a história de quatro ex-combatentes e ex-comandos do Ultramar e de como levam a vida em Portugal após a guerra, lidando com as lembranças traumáticas do conflito. Foi a primeira vez que vi o filme, infelizmente não tive oportunidade de ir ao cinema aquando da sua estreia. Mas apercebo-me agora do que perdi.
Vi o filme com o meu pai, também ele ex – combatente na Guiné. Por muitos filmes que vejamos, ou livros que leiamos, só quem fez a guerra sabe exactamente o que é fazer uma picada, ouvir o “assobio” dos obuses ou estar constantemente agarrado a uma arma (a “namorada”) porque a morte pode chegar a qualquer momento. Ninguém sabe o que verdadeiramente vai na cabeça destes homens, que durante meses viveram sobre a tensão da guerra, que mataram ou viram matar…
Mas o mais lamentável e revoltante é que os muitos milhares de ex – militares foram esquecidos, votados a um abandono silente, conveniente para elidir uma guerra inconveniente a um Portugal prestes a construir um novo futuro. O resultado desta omissão são homens destruídos por dentro, famílias arrebentadas, suicídios e uma revolta incomensurável por parte de quem deu tudo pelo país contra um país que nada lhes ofereceu em troco, nem sequer conforto e tratamento.
O filme retrata algumas desta realidades e conta com uma interpretação fabulosa de Nicolau Breyner, no papel do inspector Malarranha, à beira da reforma e cujo filho, militar no ultramar, morreu. Para Malarranha compreender este grupo de ex – combatentes (que se intitula de “Os Imortais”), é também tentar compreender o seu filho.

NAP

2 Comments:

At 09 maio, 2005 18:44, Anonymous AgoraEu said...

Estamos habituados à imagem do estudante universitário sem outras motivações para além da diversão e do prazer do ócio. Não corresponde à verdade. Há quem dedique o seu tempo a perceber o porquê das coisas, a perguntar "Porquê?", a não aceitar as justificações do "politicamente correcto" e a buscar soluções para aquilo que nos inquieta ou deveria inquietar.
Em tempo "pré-Queima" estás a trilhar caminhos "demasiado" profundos.
Os sentidos estarão a apontar noutras direcções.

 
At 09 maio, 2005 23:53, Anonymous Anónimo said...

Caro AgoraEu: o que mais me aflige é que passados 30 anos do final da guerra falar dela é praticamente tabu. Não se escreve quase nada (assim de repente lembro-me dos dois primeiros romences de Lobo Antunes que abordavam a experiência pessoal do autor em Angola), filma-se muito pouco e a discussão é nula.
Não dá para disfarçar o sentimento de injustiça que a maioria dos veteranos sentem com um Estado que nunca os apoiou como devia.

NAP

 

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