17 abril 2005

TODOS OS NOMES

Entre as inúmeras singularidades nacionais conta-se o nativo gosto pelas designações e títulos, estrategicamente colocados antes do nome (próprio). Existe um verdadeiro rol nominativo, uma intricada lista de denominações cujo uso obedece a critérios enraizados no húmus da prática social e que, sinceramente, ainda hoje me causam sérios embaraços.

Longe vão os tempos de infância em que o outro era tratado por tu ou então, quando se tratasse de pessoa desconhecida e mais velha, por senhor(a). Mas à medida que os anos passam vou-me apercebendo que isto tem muito mais que se lhe diga. No que se refere ao sexo feminino podemos estar perante uma: menina (quando jovem), uma senhora, uma senhora dona ou simplesmente perante uma dona. Desconheço por completo em que idade se passa de menina a senhora, e muito menos em que circunstâncias se deve usar senhora, apenas, ou quando é imperioso conjugar as duas denominações num pomposo senhora dona. É evidente que falo apenas numa mulher que não tem títulos académicos, porque aí entramos num verdadeiro desafio ao intelecto; mas já lá vamos.

Tratando-se de um homem as coisas parecem, repito, parecem mais simples. Ao já referido tratamento por tu, sucede-se um mais formal jovem: “- oh jovem, tem as horas que me diga?”. Depois entra-se numa fase mais crítica em que apesar de termos cara de petizes as pessoas hesitam em tratar-nos por jovem ou por senhor. A coisa parece estagnar por aqui, com a fórmula tradicional de senhor.

Mas todos os problemas fossem estes. Quando às fórmulas anteriores se junta um título académico então entramos num mundo oculto. Se estivermos perante uma mulher licenciada o tratamento será qualquer coisa como: senhora doutora (pronuncia-se “soutôra”); se por acaso se tratar de uma senhora (estão a ver) com um doutoramento deve optar-se por um senhora professora, ou então senhora professora doutora, ou simplesmente professora?. Não podemos esquecer que se se tiver doutorado em Coimbra terá de se chamada apenas de Doutora, salvo se com isto pressentirmos que a pessoa em questão sente que não lhe estão dando o devido valor e, então, optar-se-á pelo senhora professora doutora novamente, frisando o doutora! E tratando-se de um engenheiro, deveremos tratá-lo por engenheiro ou por senhor engenheiro? E se for um engenheiro técnico? Apenas por engenheiro, engenheiro técnico ou por senhor engenheiro técnico? Na eventualidade de estarmos perante um engenheiro doutorado, chamar-lhe-emos senhor professor doutor engenheiro?

Ainda dizem que a Química Orgânica e a Algoritmia é complicada. Mais difícil é conseguirmo-nos orientar neste labirinto de nomes e designações, em que, com um passo em falso estaremos para sempre condenados ao epíteto de mal-educado e insolente e sujeitos à excomunhão da Ordem de Todos os Nomes!

NAP

1 Comments:

At 18 abril, 2005 10:08, Blogger AgoraEu said...

Ainda que se possa argumentar com a tradição, estes tiques são reveladores de uma pequenez a que nos remeteram (ou quiseram remeter...).
O distanciamento exigido (imposto) por esta forma de tratamento quase sempre esconde um complexo de inferioridade a que se associa a incompetência, em muitos casos.
Continuo a preferir outros modelos de relacionamento cuja matriz define "as Pessoas primeiro".
Tudo o resto não passa de adornos que cada um saberá usar na medida do necessário e quando necessário.

 

Enviar um comentário

<< Home