06 janeiro 2005

NÃO QUERO UM DOM SEBASTIÃO


Cada português tem dentro de si uma chama providencialista. A crise que assola o rectângulo luso tem sido autêntica gasolina para esta chama; o português acorda de manhã, abre a porta de casa e procura entre as brumas o homem providencial que tudo resolverá. Trata-se de uma figura ímpar, dotada de qualidades únicas e excepcionais, capaz de congregar consensos e esforços e de nos colocar a todos de novo no caminho da felicidade. Este homem baixará o défice, o desemprego, os impostos, aumentará os salários da função pública… enfim, um autêntico milagreiro, capaz de nos dar tudo e de tudo fazer por nós.

Não quero nem acredito em homens providenciais. Renego todo e qualquer Dom Sebastião! Gostava, aliás, de relembrar a todos os revivalistas que o último homem providencial que apareceu por estas bandas (apelidado, imagine-se, de “Santo”!), por cá ficou a governar Portugal durante quarenta anos, mantendo o país na miséria, a população inculta, boçal e reprimida, e a economia numa estagnação desoladora. Pelos feitos deste homem providencial, deste “velho abutre” (como lhe chamava Sophia), ainda hoje estamos a pagar caro. Eu não quero mais disto, alguém quer?

Homens e mulheres providenciais somos todos nós se nos tornarmos mais responsáveis e cientes de que uma quota parte da responsabilidade por este estado de coisas é nosso. Temos de abandonar os tiques consumistas e despesistas de país rico (que nunca fomos), criar poupança, deixar de recorrer ao crédito fácil como panaceia para todos os problemas, largar o nacional vaidosismo de passear com um carro da marca em voga, último modelo. Chegou a hora de vivermos de acordo com aquilo que temos na bolsa. Temos todos de ser mais empreendedores; para criar riqueza não podemos estar à espera do investimento público, somos nós quem tem de lutar. Quanto mais exigirmos do Estado mais ele nos cobrará no futuro.

Isto não significa virar as costas à governação e à política nacional, pelo contrário, é necessário ser cada vez mais exigente com quem está no Executivo e no Parlamento. Exigir medidas concretas, para os problemas graves que enfermam o nosso país, planos de médio e longo prazo, estabilidade governativa, responsabilizar os governantes, e rejeitar os discursos grandiloquentes e inanes que nada resolvem.

Acredito que só por estultícia se pode pensar que vem aí alguém para nos salvar. Salvemo-nos antes nós.

NAP

6 Comments:

At 06 janeiro, 2005 15:42, Anonymous Anónimo said...

Sábias palavras, caro NAP!!
As pessoas vêm no Estado um pai, mas não querem um pai que dê uma boa educação, querem um pai que faça as vontades todas aos filhos.
Só pensamos nos direitos e esquecemo-nos demasiadas vezes, não só dos nossos deveres, mas também daquilo que podemos fazer por nós próprios.
Olívia Santos

 
At 06 janeiro, 2005 16:00, Blogger AgoraEu said...

"Eu não quero mais disto, alguém quer?"

Eu não quero!
Prefiro a atitude de exigência permanente de cada um em relação a si mesmo e em relação aos outros que têm a obrigação de fazer bem o seu ofício.
Basta de termos a decidir quem não se preocupa com as consequências das suas decisões antes estando preocupados com o que podem daí obter em proveito próprio ou "para os seus".
Basta de pactuar com a incompetência!
O conformismo e a acomodação mataram a capacidade de empreender. É mais fácil e...
Dá menos trabalho! Os outros que façam.
Basta de lamúria. Mãos à obra!
É isso que se espera de nós.
Estarei sempre na linha da frente.

 
At 07 janeiro, 2005 02:13, Anonymous Anónimo said...

Afonso Henriques, Nuno Álvares Pereira, Infante D. Henrique, D. João IV, ou mais recentemente Sidónio Pais... falando apenas de alguns dos muitos exemplos (incontroversos) que povoam a nossa história... De indivíduos que pelos vistos não existem ou não fazem avançar o país... Ou será antes que é melhor fingir que eles não existiram e que Portugal é um lodaçal, de onde nunca sairam mentes brilhantes ou almas de coragem, para que algumas mentes infectadas pelo raquitismo intelectual se possam sentir melhor na sua pequenez... ou melhor ainda: pormos uma venda nos olhos e fingimos que está tudo bem, e basta não comprarmos automóveis topo de gama e escolhermos o arroz na prateleira de baixo do supermercado para que as coisas melhorem. Homens providenciais são aquilo de que a história é feita, e não são imbecis que assim pensam vendo SÓ estes exemplos: Padre António Vieira e Fernado Pessoa... A não ser que se lhes queira chamar imbecis (ou estultos se preferirem) e continuarmos a olhar para a sombra dos gigantes e não querer crescer...
CDR

 
At 07 janeiro, 2005 14:13, Anonymous Anónimo said...

Caríssimo CDR:

conheço a sua admiração pela História de Portugal e sei que era capaz de citar outros grandes vultos, como Álvaro Cunhal ou Mário Soares (os quais não citou, obviamente, apenas para não enfadar o leitor), no entanto, julgo que a interpretação que fez do meu post acabou por deturpar o sentido que lhe procurei imprimir.
É evidente que sempre existiram importantes figuras, na política, nas artes, na música… enfim em qualquer ofício humano. Contudo o meu comentário não negava isso, nem tão pouco a isso se referia.
O que defendo é que não podemos estar à espera de um qualquer Homem providencial (que não existe) que nos venha salvar, que venha fazer por nós tudo aquilo que não somos capazes de fazer por nós próprios. Acha que se ficarmos sentadinhos à espera desse Nuno Álvares Pereira, desse Sidónio Pais, continuando a adoptar comportamentos consumistas, vivendo acima das nossas possibilidades, não criando poupança e acima de tudo não criando riqueza as coisas melhoram?
Reporto-o, se me permitir, para a crónica de Miguel Sousa Tavares:”…hoje em dia, há duas espécies de cidadãos em Portugal: os que vivem encostados ao partido e ao estado e os que vivem por si mesmos. Escusado será dizer que o que faz a riqueza de uma nação não é a quantidade de cidadãos seus que vive dependente dos favores e do tráfico de influências com o poder político, mas a de homens livres, que abrem caminho sem esperar nem pedir os favores do príncipe”.
Apetece-me recuperar a frase de Kennedy: não perguntemos o que o nosso país pode fazer por nós mas antes aquilo que nós podemos fazer pelo nosso país.

Respeitosamente:
NAP

 
At 07 janeiro, 2005 15:11, Anonymous Anónimo said...

Estimadíssimo NAP,

Peço desde já desculpa se interpretei erradamente o teu post, no entanto, desde já te informo que acredito que os ditos homens providenciais existem mesmo... e era nesse ponto que eu queria tocar... e um Fernando Pessoa ou Padre António Vieira nas suas expectativas quanto ao futuro do nosso (muito estimado) país também acreditavam que ele viria mesmo, fundando nisso alguns dos seus escritos mais famosos(como bem sabes).
A vinda de uma tal figura não implica que os nossos concidadaos relaxem e continuem a fazer este arrazoado de disparates, confiar em políticos que nada tem de amor pelo país e esperar pelo subsídio de desemprego em vez de irem trabalhar...
Nisso estamos de pleno acordo.
Ja quanto ao mario soares e alvaro cunhal... faço questão de não incluir maiúsculas...

Grande abraço para ti NAP e espero que assim continues apesar das nossas divergências..
CDR

 
At 07 janeiro, 2005 22:39, Anonymous Anónimo said...

Caro CDR,
Não pretendo descurar o génio que reconheço em Pessoa, poeta que admiro e cuja poesia, por ser genial, me fascina. Queria tão somente partilhar algumas palavras que o próprio escreve nos seus escritos íntimos: "Toda a minha vida tem sido de passividade e de sonho. Todo o meu carácter consiste no ódio, no horror de, na incapacidade para actos decisivos, para pensamentos definidos, que tolhe fisicamente e totalmente todo o meu ser. (...) Enlouquece-me que as coisas do imediato se cumpram, que os homens sejam felizes, que uma solução possa ser encontrada para os males da sociedade."
É óbvio que aos génios tudo é permitido, é óbvio que falamos de um poeta e não de um político, mas Pessoa sonhava com um Quinto Império, com um D. Sebastião renascido do nevoeiro.
Se há por aí um génio, se existe um homem providencial, por favor, ele que aja!!! É de acção que o país precisa.
Olívia Santos

 

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